HomeNotíciasFazenda Itaocaia guarda mais de 300 anos da história de Itaipuaçu

Fazenda Itaocaia guarda mais de 300 anos da história de Itaipuaçu

Propriedade atravessou o período colonial, a produção de açúcar e café, o trabalho escravizado, a passagem de Darwin e a transformação rural da região

Em meio à paisagem de Itaocaia Valley está uma das construções mais importantes para compreender a história de Itaipuaçu: a Fazenda Itaocaia.

A sede teria sido construída nas primeiras décadas do século XVIII. O conjunto apresenta características da arquitetura rural colonial e permaneceu como testemunho de diferentes fases econômicas e sociais de Maricá.

Ao longo de sua existência, a propriedade esteve relacionada à produção agrícola, ao uso de mão de obra escravizada, a famílias proprietárias de terras e à formação do território que atualmente recebe residências, estabelecimentos e atividades turísticas.

O antigo Engenho Tokaia

Registros históricos mencionam a propriedade como Engenho Tokaia.

A palavra “engenho” podia designar não apenas o equipamento utilizado para processar a cana, mas todo o conjunto produtivo formado por terras, lavouras, construções e trabalhadores.

A produção de cana-de-açúcar teve grande importância na economia colonial de Maricá. Posteriormente, a fazenda também esteve ligada ao cultivo de café e a outras atividades agrícolas.

Vestígios relacionados ao antigo engenho foram incluídos no conjunto protegido pelo município.

A riqueza foi sustentada pelo trabalho escravizado

A história da fazenda não pode ser contada apenas por meio de sua arquitetura ou de seus proprietários.

Documentos municipais reconhecem que dezenas de pessoas escravizadas trabalharam na propriedade. Elas atuavam nas lavouras, no processamento da produção, no cuidado com animais, na manutenção das construções e em tarefas domésticas.

Esses trabalhadores produziram grande parte da riqueza que permitiu o funcionamento da fazenda, mas seus nomes e trajetórias aparecem com menos frequência nos relatos tradicionais.

Resgatar essa memória exige consultar registros de batismo, casamento, falecimento, inventários e documentos de propriedade.

Itaipuaçu fazia parte de um território rural

Antes dos loteamentos, grandes propriedades rurais ocupavam extensas áreas da região.

Um estudo histórico sobre a Serra da Tiririca aponta que terras de Itaipuaçu estiveram vinculadas, em períodos diferentes, aos beneditinos e a proprietários particulares. Em meados do século XIX, a Fazenda Itaocaia aparece associada ao Visconde e à Viscondessa de Vila Real da Praia Grande.

As divisas das antigas fazendas não correspondem necessariamente aos atuais limites dos bairros. Estradas, loteamentos e divisões imobiliárias transformaram o território.

Darwin passou por Itaocaia

Em 8 de abril de 1832, o naturalista Charles Darwin atravessou a região durante uma excursão realizada enquanto o navio HMS Beagle estava no Rio de Janeiro.

Seu diário registra a chegada a um lugar chamado “Ithacaia”, onde observou uma pequena concentração de construções em meio à planície. Darwin também registrou a presença de moradias de pessoas escravizadas ao redor das casas centrais.

A passagem se tornou um dos elementos mais conhecidos da Fazenda Itaocaia, embora seja necessário cuidado ao afirmar exatamente onde ele se hospedou.

Fazenda foi protegida pelo município

Em 2013, o município iniciou medidas de tombamento e desapropriação do conjunto.

A proteção abrangia a sede remanescente, vestígios do engenho e uma área adjacente de aproximadamente 25 mil metros quadrados. A intenção era garantir o uso público e desenvolver atividades relacionadas à cultura, ao turismo e ao meio ambiente.

O tombamento não significa apenas preservar paredes. A importância do espaço está em reunir arquitetura, arqueologia, paisagem rural, memória do trabalho e diferentes períodos da ocupação de Maricá.

Um espaço de cultura e turismo rural

Nos últimos anos, a Fazenda Itaocaia passou a receber exposições, oficinas, atividades culturais e eventos ligados ao circuito rural.

Projetos como o Curta Itaocaia ajudam a divulgar gastronomia, artesanato, produção local, trilhas e a história da região.

A fazenda também integra roteiros relacionados aos Caminhos de Darwin e às propostas de valorização do patrimônio geológico de Maricá.

Preservar sem apagar os conflitos

A Fazenda Itaocaia pode ser apresentada como atração turística, mas sua história precisa incluir as desigualdades que sustentaram sua produção.

Preservar o patrimônio significa contar:

  • quem eram os proprietários;
  • o que era produzido;
  • quem realizava o trabalho;
  • como as terras foram divididas;
  • como a propriedade se relacionava com outros núcleos;
  • quais memórias foram mantidas ou esquecidas.

A construção permanece em Itaocaia Valley como um dos raros elementos materiais capazes de conectar a Itaipuaçu atual ao período colonial.

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