Naturalista atravessou a Serra da Tiririca, chegou a Itaocaia e seguiu em direção à Lagoa de Maricá durante viagem pelo interior fluminense
Muito antes de se tornar mundialmente conhecido pela teoria da evolução, Charles Darwin passou por Itaipuaçu.
A visita ocorreu em 8 de abril de 1832, durante a expedição do navio HMS Beagle. Enquanto a embarcação permanecia no Rio de Janeiro, Darwin participou de uma viagem terrestre para observar paisagens, animais, plantas e formações geológicas.
O relato escrito pelo próprio naturalista confirma sua passagem por uma localidade chamada “Ithacaia”, identificada com a região de Itaocaia.
Travessia começou em Niterói
Darwin descreveu a saída da região então conhecida como Praia Grande, atual Niterói.
O grupo atravessou terrenos montanhosos e áreas de floresta antes de descer para uma planície. A paisagem observada corresponde ao corredor da Serra da Tiririca entre Niterói e Maricá.
Ao chegar a Itaocaia por volta do meio-dia, Darwin registrou a existência de uma pequena comunidade, formada por casas centrais e moradias ocupadas por pessoas escravizadas ao redor.
O diário não diz claramente que ele dormiu na fazenda
A tradição turística afirma com frequência que Darwin teria se hospedado ou passado a noite na Fazenda Itaocaia.
Entretanto, o diário disponível indica que ele deixou Itaocaia ainda no mesmo dia, prosseguiu em direção à Lagoa de Maricá e passou a noite em uma venda localizada ao longo do caminho.
Assim, a fonte primária confirma a passagem por Itaocaia, mas não comprova que Darwin tenha dormido na atual sede da fazenda. É possível que ele tenha parado na propriedade ou em construções vinculadas ao núcleo rural, mas essa conclusão exige documentação adicional.
Darwin registrou a escravidão e a resistência
Durante o percurso, Darwin escreveu sobre a sociedade escravista que encontrou.
Ele relatou a existência de um local nas montanhas utilizado como refúgio por pessoas que haviam escapado da escravidão. Também demonstrou indignação diante da forma desigual como a sociedade julgava aqueles que resistiam à condição imposta.
Essas anotações mostram que a viagem não foi formada apenas por observações de plantas e pedras. Darwin também registrou relações humanas e conflitos presentes no Brasil do século XIX.
O que ele observava durante as viagens?
Darwin mantinha anotações sobre:
- geologia;
- relevo;
- tipos de solo;
- vegetação;
- animais;
- modos de vida;
- agricultura;
- organização social.
Essas observações integraram o conjunto de experiências acumuladas durante a viagem do Beagle, realizada entre 1831 e 1836.
A passagem por Maricá foi apenas uma pequena parte da expedição, mas mostra que Itaipuaçu esteve no caminho de uma das jornadas científicas mais conhecidas da história.
O roteiro atual dos Caminhos de Darwin
A região passou a integrar o roteiro turístico chamado Caminhos de Darwin.
O trajeto procura reconstruir partes do percurso entre Niterói e Maricá, envolvendo a Serra da Tiririca, Itaocaia, a fazenda histórica e outras áreas associadas às anotações do naturalista.
Alguns trechos atuais podem coincidir com caminhos antigos, mas não é possível afirmar que todas as estradas e trilhas modernas seguem exatamente o traçado percorrido em 1832.
Darwin e a imagem de Itaipuaçu
A visita acrescenta uma dimensão internacional à história local.
No entanto, o episódio deve ser divulgado com fidelidade às fontes. É mais correto afirmar que Darwin:
- atravessou a região;
- chegou a Itaocaia;
- observou a paisagem e a sociedade;
- seguiu em direção ao interior de Maricá.
A ideia de que ele dormiu na atual Fazenda Itaocaia pode ser apresentada como tradição local ou narrativa turística, e não como fato definitivamente comprovado pelo diário.
Essa distinção não diminui a importância da passagem. Pelo contrário: permite contar uma história ainda mais interessante, baseada no que o próprio Darwin escreveu sobre o território.


