Florestas, áreas úmidas, propriedades rurais e antigos caminhos dominavam uma paisagem muito diferente da encontrada atualmente
É difícil observar as milhares de casas, avenidas e estabelecimentos comerciais de Itaipuaçu e imaginar uma época em que grande parte do distrito era formada por propriedades rurais, matas, áreas alagadas e caminhos estreitos.
Antes da expansão dos loteamentos, o território não estava vazio. Ele era ocupado por povos indígenas, trabalhadores rurais, pessoas escravizadas, pequenos moradores e grandes proprietários em diferentes períodos.
A paisagem, entretanto, apresentava uma densidade de construções muito menor.
Ocupação começou muito antes do século XX
O litoral de Maricá possui uma história humana anterior à colonização portuguesa.
Nomes como Itaipuaçu e Itaocaia preservam influências indígenas. A proximidade com sítios arqueológicos encontrados na região de Itaipu também demonstra que essa faixa costeira era conhecida e utilizada por populações antigas, embora seja necessário evitar atribuir automaticamente a Itaipuaçu todos os achados registrados em Niterói.
Durante o período colonial, sesmarias foram concedidas e grandes fazendas passaram a organizar a produção rural. Os beneditinos receberam terras em Maricá no século XVII e outras propriedades, como Itaocaia, desenvolveram-se nos séculos seguintes.
Fazendas, lavouras e criação de animais
A economia local esteve ligada a atividades como:
- cultivo de cana-de-açúcar;
- produção de açúcar e derivados;
- café;
- criação de gado;
- agricultura de subsistência;
- extração de madeira;
- pesca.
Essas atividades dependiam de caminhos para transportar pessoas e mercadorias entre fazendas, lagoas, portos e núcleos urbanos.
A produção de grandes propriedades foi sustentada, durante longo período, pelo trabalho escravizado.
Áreas úmidas ocupavam a planície
Itaipuaçu está situada em uma planície entre o mar e as montanhas.
Antes da abertura de canais e da urbanização, a água circulava por córregos, brejos, lagoas e áreas sazonalmente alagadas. Esses ambientes armazenavam parte da chuva e abrigavam vegetação adaptada ao solo úmido.
A abertura de canais artificiais e a drenagem de áreas ajudaram a preparar terrenos para loteamentos. Ao mesmo tempo, alteraram o funcionamento natural da planície. Estudos urbanísticos situam essas mudanças entre os fatores que permitiram a expansão das áreas residenciais.





Primeiros loteamentos ganharam força no século XX
A fragmentação das grandes propriedades e a venda de lotes se intensificaram principalmente a partir das décadas de 1940 e 1950.
Itaipuaçu passou a ser divulgada como região de veraneio, com terrenos próximos à praia e acesso possível a partir de Niterói e São Gonçalo.
Os projetos de parcelamento criaram uma malha de ruas extensa, muitas vezes identificadas por números. A ocupação, porém, ocorreu lentamente. Durante décadas, havia ruas abertas no papel, mas poucos moradores permanentes e pouca infraestrutura.
A Ponte Rio–Niterói acelerou o interesse
A inauguração da Ponte Rio–Niterói, em 1974, melhorou a conexão entre a capital e o leste da Região Metropolitana.
Isso aumentou o interesse por casas e terrenos em áreas de praia, incluindo Itaipuaçu. Famílias do Rio, de Niterói e de São Gonçalo adquiriram imóveis para passar férias e fins de semana.
O crescimento continuou com a melhoria da RJ-106, a expansão do transporte e a valorização imobiliária.
Casas de veraneio tornaram-se moradias
A partir das últimas décadas do século XX e, de forma mais intensa, nos anos 2000, muitas residências deixaram de ser utilizadas apenas ocasionalmente.
A aposentadoria de proprietários, o preço dos imóveis e a busca por casas maiores ajudaram a transformar Itaipuaçu em região de moradia permanente.
Pesquisas sobre a urbanização local apontam redução proporcional dos domicílios de uso ocasional e crescimento acelerado da população residente.
A paisagem natural ainda pode ser encontrada
Apesar da urbanização, parte da antiga paisagem permanece:
- Serra da Tiririca;
- Pedra do Elefante;
- Pedra de Itaocaia;
- trechos de restinga;
- cursos d’água;
- propriedades rurais de Itaocaia Valley;
- áreas próximas ao Canal da Costa.
Esses espaços ajudam a imaginar como era o território antes da multiplicação das casas.
Conhecer essa transformação é fundamental para compreender problemas atuais. Alagamentos, ocupação de áreas frágeis e grandes distâncias internas estão ligados à maneira como a antiga planície rural foi parcelada e urbanizada.


